Jorge Vasconcellos, professor de filosofia

Schopenhauer (1788-1860), filósofo alemão, tornou-se um dos pensadores mais controvertidos da História. Denominado pela tradição como mestre do pessimismo filosófico, foi sem dúvida, um dos grandes estilistas da prosa filosófica. Sua formação clássica em literatura (Goethe frequentava sua casa) e música (era pianista), além de seu apreço pelos gregos antigos, especialmente Platão, lhe conferiu agudo senso crítico filosófico e apaixonada adesão à arte. Articulando-as, filosofia e arte, nos deixou um legado extraordinário. A despeito de não ter conhecido sucesso em vida, sua obra acabou por exercer forte influência em pensadores do porte de Nietzsche e Freud, além de romancistas como o nosso Machado de Assis.

Schopenhauer escreveu não só livros de indiscutível valor filosófico e acadêmico, como O Mundo como Vontade e Representação, como também textos provocadores. Este é o caso de A Arte de Ter Razão ou Como Vencer um Debate sem Ter Razão (em duas traduções e edições diferentes para o português). Esta obra, composta de 38 estratagemas, é uma espécie de guia de retórica, porém, nem tanto como pode parecer à primeira leitura. Nesta obra, temos um livro de humor filosófico, no qual o chiste e o gracejo são fundamentais. E mais, os estratagemas e as lições ali contidas são, na verdade, um instrumento agônico. Funcionam como arma. Espécie de luta de boxe no plano das idéias e dos argumentos. Duelo interminável entre interlocutores que se provocam em círculos sem-fim, no qual batalhar é mais importante que vencer. Como se Schopenhauer nos dissesse: uma conversação é a guerra feita de palavras e sentenças: estratégias e estratagemas.